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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Síndrome de Danuza Leão


A célebre colunista da Folha de São Paulo, Danuza Leão, é conhecida entre os livreiros principalmente pelo sucesso de vendas de seus livros sobre etiqueta social.

“Na Sala Com Danuza” lançado ainda no tempo da editora Siciliano frequentou a lista de Mais Vendidos por meses.  Seu lançamento mais recente “É tudo Tão Simples”, pela editora Agir, também mereceu do seu público leitor uma nova vida na lista mais desejada dos autores.

Mas a colunista especialista em como se comportar no ambiente social, cometeu uma gafe proporcional à sua fama quando num artigo publicado no dia 25 de Novembro reclamou que não há mais graça em viajar para Paris ou Nova York, quando até o porteiro do prédio pode fazer o mesmo.  

Não vou nem me dedicar a comentar o quanto acho desprezível esse comportamento de certas pessoas endinheiradas que não se conformam com as mudanças sociais ocorridas no país nos últimos 10 anos.

A razão de mencionar este caso aqui é o paralelo que faço desta visão elitista de gente que se julga muito superior aos demais e não aceita sequer imaginar que o Zé Povinho possa frequentar os mesmos ambientes segregados que criaram para si, com o comportamento de alguns colegas, vendedores de livros, livreiros em geral com este novo consumidor que está entrando nas livrarias em busca de livros desta nova onda de consumo de literatura erótica ou de grandes best-sellers que aparecem de uma hora para outra.

Tenho visto (lido, para ser mais exato) muita gente reclamando que as pessoas estão comprando livros de autoras tais como E.L. James ou Silvia Day e nunca leram Clarice Lispector, Fernando Pessoa,  Nélida Piñon  ou outros autores tidos como aceitáveis por este raciocínio “pseudo-Intelectual”.

Já vi este filme antes, a mesma bobagem quando Harry Potter estourou de vendas e tinha gente reclamando que as crianças deviam ler Monteiro Lobato ou Mark Twain. Vamos deixar uma coisa esclarecida, uma coisa não elimina outra. As maravilhas da leitura das Reinações de Narizinho não são ofuscadas pelas aventuras em Hogwarts e um ponto que nós vendedores de livros não devemos nunca perder de vista é que a despeito de nossas opiniões e gostos pessoais, temos que buscar dentro de nossa atuação agir de forma que a experiência de seleção e compra de um livro seja uma atividade prazerosa para aquele que “ousa” adentrar no ambiente “apartado” que uma livraria pode parecer para aqueles que não têm habito de compra e leitura de livros e, que graças aos serviços, informações e atendimento que somos capazes de oferecer ao ”leitor-cliente- comprador de livros” estimulemos esta pessoa a repetir mais e mais vezes este ato.

Para o mercado de livros, é indispensável que haja sempre livros com características de block busters como estes casos já citados. É preciso que sempre haja algum tipo de livro que convide para entrar na livraria um público que não é seu frequentador contumaz e que, ao fazê-lo para comprar um livro do Pe. Marcelo, ou a biografia do Edir Macedo ou qualquer outro título que não seja aceita pelo conceito de “grandes obras da literatura”, irrigue com suas compras o caixa das livrarias e editoras, para que estas possam continuar investindo na comercialização de livros que não tem o mesmo apelo popular, mas que são fundamentais para a construção da bibliodiversidade de uma sociedade plural e democrática.

Os profissionais que atendem o cliente no balcão de uma livraria e que tem este tipo de percepção da ”inferioridade intelectual” daqueles que não leem os títulos que ele acha merecedores de leitura, podem até pensar que não deixam esta impressão passar para o cliente, mas posso garantir-lhes, estão completamente enganados. Este público sabe muito bem perceber quando é tratado com descaso.

Já temos dificuldades estruturais gigantes para superar no mercado brasileiro para criarmos mais leitores, preço alto, pequeno número de pontos de vendas e vários outros que costumo citar aqui neste blog, se deixarmos para os novos leitores a impressão que estão sendo desprezados pelas suas escolhas literárias, ai sim estamos cometendo uma estupidez gigante, aliás, como todo preconceito, uma burrice sem fim. Querendo passar por grandes coisas, acabamos sendo pequenos, medíocres e pobres de espírito. Nada a ver com o mundo das letras, não acha?

A propósito, no artigo de ontem ,  Danuza tentou consertar a bobagem, mas a emenda ficou pior que o soneto, portanto amigo livreiro, antes que alguém da sua equipe cometa uma gafe parecida, que tal ter uma conversa com todos e preparará-los para evitar que isto aconteça?

4 comentários:

Anônimo disse...

Tire o seu racismo do caminho, que eu quero passar com a minha cor. ( frase do livro Desaforismos de Georges Najjar Jr )

Talita Camargo disse...

Me faz lembrar um dos posts mais lidos e compartilhados do meu blog: "Preconceito literário: aqui não!" - http://nomundoeditorial.blogspot.com.br/2012/05/preconceito-literario-aqui-nao.html

Gerson Ramos disse...

Excelente! não tinha lido sue post, já tratei de corrigir para não perder suas atualizações e fiz minha inscrição no seu blog.
Considero muito nocivo este comportamento de gente que se julga "mais preparada" que os outros, especialmente quando estas pessoas são as que estão na linha de frente do mercado e podem definir de forma séria o interesse de um novo leitor voltar ou não à por os pés numa livraria novamente.

Fernando Levra disse...

Ótima postagem.

Esse tipo de preconceito, tanto elitista quanto literária deve ser totalmente desencorajada. Apesar de sermos diferentes, temos os mesmos direitos.