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sábado, 17 de agosto de 2013

Um fim para os profetas do Fim do Livro

Profissão de Fé.

Quem costuma ler meus textos no blog ou me conhece pessoalmente sabe que sou um militante da causa do livro.

Gosto de me definir como um Mercador de Livros,  tenho este oficio há mais de 30 anos, portanto é natural que eu queira proteger o mercado que me ajudou a conquistar tudo que possuo. Faze-lo sempre e a cada dia mais forte, é uma obsessão.

Ao mesmo tempo, tenho a responsabilidade de olhar para as oportunidades e ameaças que surgem de maneira analítica, controlando minha emoção para que aqueles que esperam de minhas observações as orientações que possam ajudá-los  a se posicionar frente a estas situações, sejam de fato favorecidos pela minha argumentação, isolando o que desejo, daquilo que percebo que as tendências induzem a acontecer.

Um fim , um começo.

Quando li no PublishNews o artigo do Seth Godin intitulado “Um Fim Para os Livros”, as primeiras linhas me inspiraram a rejeita-lo totalmente, classificando-o apenas como mais um texto messiânico de quem procura ganhar mais visibilidade para vender palestras mundo afora, prática muito em voga por ai, inclusive.

Mas lendo com mais frieza o texto do autor americano, isolando o título marqueteiro, boa parte das coisas que ele expõe são fatos muito específicos do mercado do seu país, é normal que americanos achem que o mundo gire em torno do seu umbigo, o que não é normal é que aceitemos.

Quando ele diz “a LIVRARIA, como conhecemos, está condenada porque muitos desses estabelecimentos vão passar da condição de ganhar um pouco dinheiro a cada dia, para a de perder um pouco diariamente” reforça o que o livreiro brasileiro já sabe muito bem.

Só vender livros não sustenta uma empresa comercial, o mix de produtos deve contemplar itens de maior valor unitário, maior giro e melhor margem, caso contrário é morte certa. Mas isso tem muito pouco a ver com o crescimento das vendas dos e-books. É intrínseco ao negócio.

Por Dentro dos Números.

A expansão das vendas dos e-books no mundo se deu ao mesmo tempo em que a crise econômica varreu as economias dos países do chamado primeiro mundo, portanto é  natural que os livros digitais com preços irrisórios usados para conquistar mercado, crescessem de forma exponencial. 

Por exemplo em UK, no momento estabilizou em torno  de 21,7% do número de exemplares vendidos e em pouco mais de 10,3% em dinheiro neste mercado, conforme dados da pesquisa “Understanding  The e-Book Consumer Today” realizada pela Nielsen daquele país em abril deste ano. Coincide inclusive com correções nas políticas de precificação, com a Amazon majorando seus preços.
Outra fato muito  importante, muitas vezes as matérias se referem somente ao percentual de exemplares, lembrando que  que o sustenta as empresas é $ !

Quando olhamos os números da Associaton Of AmericanPublishers (AAP) relativas ao primeiro trimestre de 2013 não é possível nem de longe imaginar este mundo sem livrarias e livros “tal como conhecemos” proposto pelo artigo, nem muito menos o domínio dos livros digitais sobre o livro impresso.

Depois de registrar crescimentos de  252% no mesmo período em 2010, caiu para 159% em 2011 , 28% em 2012 e agora APENAS 5% em 2013. Por acaso isso é um comportamento de sobreposição e extermínio de um mercado de mais de 500 anos? Não acho!

Mais significativo ainda são os números relativo às vendas de livros nas diferentes encadernações. Ah, sim o mercado americano registra uma queda de quase 5% tendo no segmento de Young Adults uma redução de quase 25% frente ao ano anterior, a responsabilidade maior por esta queda. Bem provavelmente pela falta de uma novidade representativa que cobrisse o grande volume da série Crepúsculo para o público adolescente.


Enquanto isso no Brasil...

Em breve teremos números com esta mesma qualidade aqui no Brasil, agora que a Nielsen está lançando o Bookscan e ai sim poderemos dizer com toda a propriedade que o Brasil ainda tem muito mercado para consumir LIVROS e aqui me valho da colocação do Ruy Castro que diz que é um absurdo que tenhamos que falar “livros impressos”, como se este produto com mais de 500 anos de história, tivesse se tornado um ente menor frente ao seu “oponente” tecnológico.

Preço Fixo do Livro.
É preciso lembrar que os dois países citados, onde houve uma expansão muito grande do mercado digital nestes últimos anos, não possuem leis que controlem os preços de livros, o que faz com que as grandes redes de livrarias e principalmente o E-commerce, pratiquem preços muito agressivo e que tem levado as pequenas livrarias a sucumbirem frente à concorrência tão desigual. Considero esta situação ainda pior, considerando que o Livro para estas empresas Ponto Com é usado apenas para atrair tráfego de consumidores qualificados, vendendo livros às vezes ao preço de custo. 

Sempre tive opinião contrária à Lei do Preço Fixo para o livro, mas diante do que ocorre no Reino Unido e nos Estados Unidos, acho fundamental que este ponto seja colocado novamente na mesa de forma contundente.

Estou dizendo isso apenas porque quero proteger o mercado que me ajuda a pagar as contas? 
Não, porque livrarias regionais, pequenas e médias tem papel central na formação cultural e intelectual das populações onde se situam, permitir que a lógica do mercantilismo se fortaleza é apoiar a destruição da cultura do país. Acredito que o livro digital vem ajudar a democratização do acesso ao Livro e à Leitura, mas não como um elemento que se sobrepõe rompendo com o mercado estabelecido, mas criando facilidades para atingir locais menos assistidos, que provavelmente nunca teriam  condições de sustentar uma livraria.

Convivência tranquila.

Digo isso enquanto vejo minha filha de 12 anos dormindo no sofá com um  livro do Percy Jacson com as páginas abertas aonde parou a leitura antes de pegar no sono e minha caçula de 4 anos “lê” no iPad, pela enésima vez, o app do livro “Quem Soltou o Pum?”

É nesta convivência que acredito assim como acredito que alguma hora os profetas do fim do livro vão ter que arranjar outro assunto para vender palestras. Talvez lançando mais livros que serão vendidos "fisicamente" em nossas livrarias tradicionais.



2 comentários:

germania paulino disse...

Gerson, conforme já lhe falei este é o melhor artigo já postado que eu gostei, gostei tanto, que eu gostaria de ter escrito. Continue a escrever bons artigos como este. Parabéns. Manoel Paim - Livreiro/AC

Carmen Barreto disse...

Ótimo artigo, Gerson. Minha monografia trata exatamente desta não transição impresso/digital e a coexistência de ambos, com produtos para todos os públicos e seus perfis!
Parabéns! É realmente muito bom fazer parte deste mercado que leva cultura e reflexão para todos!
Abraços
Carmen